A gripe comum - influenza - escreve uma carta à sua congénere gripe A, reclamando uma série de pontos não cumpridos pela última, relativamente a um acordo firmado entre as duas em 2008. Assim reza:
"Exma. Senhora,
É com grande admiração e consternação que verifico que Sua Excelência, não teve a dignidade e transparência, de respeitar na sua suposta honra e galantaria, o acordo por nós firmado no ido ano de 2008. Recordo-lhe que o acordo foi assinado por ambas, e que do seu não cumprimento resultariam consequências legais e de resto aplicáveis a todos os países onde a nossa actuação fosse constatada. Podemos começar exactamente por aí.
Como sabe, eu detenho o monopólio de uma das doenças mais célebres que atinge a Humanidade. Com o tempo, tenho vindo a firmar acordos com os humanos, no sentido de reduzir as taxas de mortalidade a mim associadas. Disponibilizo atempadamente a minha estirpe, para que a vacinação seja feita a tempo e horas e verdade seja dita, eles ganham uns trocos valentes com esta brincadeira e eu também. Ora, no nosso acordo, combinou-se que a sua actuação ficaria restrita a dois continentes. Você não fez a coisa por menos e decidiu instalar-se em todos os continentes, violando assim uma parte importantíssima do acordo. Agora tenho governos do mundo inteiro à perna porque estão a gastar rios de dinheiro com esta brincadeira. Argumentam que se soubessem disto não tinham comprado tantos lotes da minha estirpe. Para o ano, se surgir outra gripe qualquer, qual é a minha credibilidade?
Combinou-se também, que todo e qualquer vírus de gripe tinha que ter um nome científico interessante e coloquial, que soe bem ao ouvido. H1N1? Mas que raio de nome é este? Seria um bom nome para uma personagem da guerra das estrelas ou um modelo novo de micro-ondas. Não compreendo a sua insistência quase esquizofrénica em ser tratada desta forma.
Por último, e não menos importante, recordo-lhe que não se atreva a matar mais gente que eu. Nem pensar! Veja bem a gripe espanhola de 1918. Nunca mais a vê nem pintada. Falei com um vírus que conhece umas pessoas e limpei-lhe o sarampo, como se costuma dizer.
Sugiro-lhe que faça como a sua colega das aves, que cumpriu todas as partes do acordo e vive agora sossegada numa ilha do Pacífico.
Melhores Cumprimentos,
Influenza, PhD
Thursday, January 21, 2010
Cartas de Reclamação - A Sonolência
Um tipo que acorda mal disposto de manhã (todos os dias), escreve ao Instituto de Comportamentos em Sociedade (acho que isto não existe, mas não era de admirar que existisse) reclamando sobre os habituais procedimentos matinais em sociedade.
"Exmos. Srs.,
Permitam-me desde já sublinhar a importância da vossa instituição na nossa sociedade e agradecer pessoalmente o grande contributo que têm dado, no sentido de educar as massas e fazê-las perceber, que cumprindo pequenas regras, conseguiremos viver de uma forma mais harmoniosa e de certa maneira, de uma forma também mais relaxada. Desde a fundação da vossa instituição que noto uma significativa melhoria no comportamento dos portugueses em geral.
Contudo, há um ligeiro detalhe nas vossas orientações, que eu penso que deveria ser coberto, mas que - julgo que não seja propositado - não consta da vossa preciosa documentação. Falo do direito social que cada um tem em estar mal disposto de manhã.
Vou utilizar-me a mim próprio como exemplo; acordo todo o santo dia com uma má disposição digna de um abutre. Não exteriorizo essa má disposição de uma forma activa; se ninguém se meter comigo, eu também não me meto com ninguém. Agora, o simples facto de alguém me dizer "Bom Dia" com aquele tom de vendedor motivado, deixa-me de rastos. Até chegar ao trabalho, vivo num suplício: nos dias que preciso de abastecer o meu carro com gasolina, o simpático empregado da bomba fuzila-me no pagamento; ouço um bom dia, pergunta-me se tenho cartão de pontos, pergunta-me se é tudo e agradece no fim. E continuo eu o meu caminho, sempre um pouquinho mais mal disposto. Só quero seguir o meu caminho sem me chatearem! Mais uma provação: a portagem. Não dizer bom dia na portagem fica mal. Digo o bendito bom dia e sigo viagem. No emprego então, espera-me um pelotão ditatorial: vários bons dias, de torneadas cores e tamanhos, invadem a minha deplorável matinalidade. Fico assim, até ao meio da manhã, nesta luta indelével, refém do meu estado crónico.
Solicitava assim, por este meio, não em desespero (mas lá perto), a inclusão de literatura que aligeire o tratamento dado pelos bens dispostos aos mal dispostos no período matinal. Tendo em conta que os bens dispostos não têm culpa da nossa má disposição, e podem até não se aperceber da mesma, sugiro a utilização de um código ou um símbolo que nos identifique, e que impeça o bombardeamento de simpatia a que somos sujeitos diariamente. É a mesma ideia do "Do Not Disturb" dos hotéis mas para pessoas.
Esta é a única solução que me resta, não tentem sugerir-me yoga ou pacificações do género, já tentei tudo, continuo a acordar mal disposto.
Melhores Cumprimentos"
"Exmos. Srs.,
Permitam-me desde já sublinhar a importância da vossa instituição na nossa sociedade e agradecer pessoalmente o grande contributo que têm dado, no sentido de educar as massas e fazê-las perceber, que cumprindo pequenas regras, conseguiremos viver de uma forma mais harmoniosa e de certa maneira, de uma forma também mais relaxada. Desde a fundação da vossa instituição que noto uma significativa melhoria no comportamento dos portugueses em geral.
Contudo, há um ligeiro detalhe nas vossas orientações, que eu penso que deveria ser coberto, mas que - julgo que não seja propositado - não consta da vossa preciosa documentação. Falo do direito social que cada um tem em estar mal disposto de manhã.
Vou utilizar-me a mim próprio como exemplo; acordo todo o santo dia com uma má disposição digna de um abutre. Não exteriorizo essa má disposição de uma forma activa; se ninguém se meter comigo, eu também não me meto com ninguém. Agora, o simples facto de alguém me dizer "Bom Dia" com aquele tom de vendedor motivado, deixa-me de rastos. Até chegar ao trabalho, vivo num suplício: nos dias que preciso de abastecer o meu carro com gasolina, o simpático empregado da bomba fuzila-me no pagamento; ouço um bom dia, pergunta-me se tenho cartão de pontos, pergunta-me se é tudo e agradece no fim. E continuo eu o meu caminho, sempre um pouquinho mais mal disposto. Só quero seguir o meu caminho sem me chatearem! Mais uma provação: a portagem. Não dizer bom dia na portagem fica mal. Digo o bendito bom dia e sigo viagem. No emprego então, espera-me um pelotão ditatorial: vários bons dias, de torneadas cores e tamanhos, invadem a minha deplorável matinalidade. Fico assim, até ao meio da manhã, nesta luta indelével, refém do meu estado crónico.
Solicitava assim, por este meio, não em desespero (mas lá perto), a inclusão de literatura que aligeire o tratamento dado pelos bens dispostos aos mal dispostos no período matinal. Tendo em conta que os bens dispostos não têm culpa da nossa má disposição, e podem até não se aperceber da mesma, sugiro a utilização de um código ou um símbolo que nos identifique, e que impeça o bombardeamento de simpatia a que somos sujeitos diariamente. É a mesma ideia do "Do Not Disturb" dos hotéis mas para pessoas.
Esta é a única solução que me resta, não tentem sugerir-me yoga ou pacificações do género, já tentei tudo, continuo a acordar mal disposto.
Melhores Cumprimentos"
Carta de Reclamação - O Desgosto
Depois da namorada pôr fim a 8 anos de namoro, um jovem de 23 anos decide suicidar-se, deixando claro está, a tradicional carta de suicídio.
"Olá Rita,
O que sinto hoje é tão avassalador como o dia em que te conheci. Mais avassalador que o primeiro beijo que te dei ou do que te disse ao ouvido naquele dia no metro. A intensidade desta dor supera tudo o que senti e que vivi contigo. Consigo fazer esta comparação porque é tudo tão vivo em mim. Depois do que me disseste há uma semana lembro-me de tudo como se fosse hoje. Inundou-me de sensações e sinto-me perdido num turbilhão estranho de mágoa, revolta e saudade. É insuportável.
Tento distrair-me durante o dia, faço tudo para que a minha mente viaje para outro sítio qualquer. É um esforço hercúleo. E patético. Não paro de pensar em ti. Até um simples cheiro de perfume me deixa paranóico. Mandei fora as cartas todas que me escreveste. Tive a falar com o meu primo sobre isto, ele diz-me que preciso de ser mais racional e que não devo ficar chateado contigo. As pessoas deixam de gostar o suficiente umas das outras. A vida é mesmo assim. Mas este dia-a-dia imensamente triste não é a vida. Sou eu sem ti. Para sempre. É este o meu drama. Pensar que não te vou ter mais nenhuma vez. E ter essa certeza em mim. Ouço em repeat a Someone Great dos LCD.. adormeço com lágrimas nos olhos e com o sonho em ti. Que não passa disso. De um sonho.
Falam sempre em tornar os sonhos em realidade. Tu conseguiste transformar a minha realidade num sonho. Literalmente. Não digo isto para te sentires mal, mas é estranho para mim constatar que muitas palavras têm agora outro significado. Hoje sou eu e as minhas circunstâncias. Hoje, mais tremendas que nunca. E o problema maior é que ninguém fala a minha língua. A de hoje, pelo menos. Se eu sinto isto tudo ao mesmo tempo, como é que posso ter calma? Ou esperar que o tempo cure o que quer que seja? O que eu queria, eras tu. Mas já sei que não te posso ter. Nunca mais.
Disse muitas vezes, a muitos amigos, que me pediam conselhos sobre como terminar relacionamentos, que nós é que somos importantes e que o que interessa é sentir que estamos bem. Hoje sou eu a conhecer o egoísmo - necessário compreendo - dessa retórica. Aquilo que eu decidi fazer hoje, não é um acto de coragem, pelo contrário, coragem era eu ficar aqui a lidar com o meu sonho. Isto é egoísmo, puro, não muito diferente dos conselhos que dei aos meus amigos. O importante hoje, é isto passar, ir embora. É eu ficar bem. E ironicamente, mesmo sem estarmos juntos, depois de eu fazer isto, sou eu que ponho um fim na nossa história. Perdoa-me o protagonismo, mas como dizem, é o que se leva desta vida.
Despeço-me de ti com um beijo, intenso como sempre, mas hoje, e também para sempre, com outro sabor. Deixo cá o meu sonho e parto sozinho, para outra realidade."
"Olá Rita,
O que sinto hoje é tão avassalador como o dia em que te conheci. Mais avassalador que o primeiro beijo que te dei ou do que te disse ao ouvido naquele dia no metro. A intensidade desta dor supera tudo o que senti e que vivi contigo. Consigo fazer esta comparação porque é tudo tão vivo em mim. Depois do que me disseste há uma semana lembro-me de tudo como se fosse hoje. Inundou-me de sensações e sinto-me perdido num turbilhão estranho de mágoa, revolta e saudade. É insuportável.
Tento distrair-me durante o dia, faço tudo para que a minha mente viaje para outro sítio qualquer. É um esforço hercúleo. E patético. Não paro de pensar em ti. Até um simples cheiro de perfume me deixa paranóico. Mandei fora as cartas todas que me escreveste. Tive a falar com o meu primo sobre isto, ele diz-me que preciso de ser mais racional e que não devo ficar chateado contigo. As pessoas deixam de gostar o suficiente umas das outras. A vida é mesmo assim. Mas este dia-a-dia imensamente triste não é a vida. Sou eu sem ti. Para sempre. É este o meu drama. Pensar que não te vou ter mais nenhuma vez. E ter essa certeza em mim. Ouço em repeat a Someone Great dos LCD.. adormeço com lágrimas nos olhos e com o sonho em ti. Que não passa disso. De um sonho.
Falam sempre em tornar os sonhos em realidade. Tu conseguiste transformar a minha realidade num sonho. Literalmente. Não digo isto para te sentires mal, mas é estranho para mim constatar que muitas palavras têm agora outro significado. Hoje sou eu e as minhas circunstâncias. Hoje, mais tremendas que nunca. E o problema maior é que ninguém fala a minha língua. A de hoje, pelo menos. Se eu sinto isto tudo ao mesmo tempo, como é que posso ter calma? Ou esperar que o tempo cure o que quer que seja? O que eu queria, eras tu. Mas já sei que não te posso ter. Nunca mais.
Disse muitas vezes, a muitos amigos, que me pediam conselhos sobre como terminar relacionamentos, que nós é que somos importantes e que o que interessa é sentir que estamos bem. Hoje sou eu a conhecer o egoísmo - necessário compreendo - dessa retórica. Aquilo que eu decidi fazer hoje, não é um acto de coragem, pelo contrário, coragem era eu ficar aqui a lidar com o meu sonho. Isto é egoísmo, puro, não muito diferente dos conselhos que dei aos meus amigos. O importante hoje, é isto passar, ir embora. É eu ficar bem. E ironicamente, mesmo sem estarmos juntos, depois de eu fazer isto, sou eu que ponho um fim na nossa história. Perdoa-me o protagonismo, mas como dizem, é o que se leva desta vida.
Despeço-me de ti com um beijo, intenso como sempre, mas hoje, e também para sempre, com outro sabor. Deixo cá o meu sonho e parto sozinho, para outra realidade."
Cartas de Agradecimento - O Divórcio
A instituição divórcio, escreve uma carta ao estado português, agradecendo a constante evolução da sua quota de mercado.
"Digníssimos Senhores,
Durante o período a que suas excelências apelidam de "tempo da outra senhora" eu praticamente não existia no vosso país. Fiz muita pressão junto dos órgãos de comunicação social, tentando associar a minha existência, a uma sociedade aberta, moderna e desenvolvida, onde a liberdade de cada um era agora mais abrangente. O amor, queria eu que vocês entendessem, não era para toda a vida. E não sendo para toda a vida, o divórcio era inevitável. Mas no "tempo da outra senhora" ninguém acreditou em mim. A família, era o núcleo da sociedade. E assim, assisti, impávido e pouco sereno devo dizer, à construção de eternas histórias de amor. Ou pseudo-amor? Bom, vamos acreditar por agora, que seriam histórias de amor. E a paranóia pelo casamento foi de tal ordem, que enviavam vocês rapaziada para a guerra e as meninas casavam-se por procuração. E onde é que já se viu isto, um casamento sem noite de núpcias? Onde é que andava toda a gente com a cabeça?
Aquando da queda "da outra senhora" veio a liberdade e eu claro, não me fiz rogado e entrei país adentro. Onde chega a Coca-Cola, chega o divórcio. Eu, gostem ou não, faço parte da evolução social. Um homem ou uma mulher toma uma decisão, arrepende-se e tem como dar a volta a coisa. À custa, por vezes, de muito dinheiro é certo, mas ainda assim, tem como dar a volta. Não compreendo, de todo, a revolta de algumas instituições, religiosas por exemplo, contra a minha condição. Clamam o livre arbítrio para a humanidade, mas reduzem-nos a um amor que se revela a longo prazo moribundo e arcaico. O amor humano? Não me façam rir.
Compreendo por outro lado, que existe uma motivação económica agregada ao casamento. Faz parte da sua génese e contra isso, nada de nada. Agora, porque é que uma pessoa tem que morrer agarrada a outra só porque no início da vida teve que.. tratar da vida? E os que se casam com a paixão a sair-lhes pelas orelhas? Que não percebem que a paixão é o mais insidioso dos sentimentos? E que gostem ou não, passa. Não como vento, mas passa. E a teoria que depois da paixão vem o amor, não é uma teoria. Para o ser, precisaria de ser demonstrada, e quem, no seu perfeito juízo, consideraria o amor a médio prazo, uma verdade demonstrada?
Aproveito hoje, o dia do meu aniversário, para agradecer o vosso empenho tremendo em aumentar a minha taxa de ocorrência. Em Portugal, ao que parece, metade das pessoas que se casam, divorciam-se. Uns redondos 50%. Sei também que à volta de 70% desta taxa se deve a problemas financeiros, coisa que no vosso país, é o status quo. Este factor aliado à ideia de que o casamento é uma das vias para a felicidade, garante-me um futuro risonho. Deixo-vos um conselho e contra mim falo: não hipotequem a felicidade dos vossos cidadãos em nome da natalidade. A vossa libertação não deve depender de um papel.
"Digníssimos Senhores,
Durante o período a que suas excelências apelidam de "tempo da outra senhora" eu praticamente não existia no vosso país. Fiz muita pressão junto dos órgãos de comunicação social, tentando associar a minha existência, a uma sociedade aberta, moderna e desenvolvida, onde a liberdade de cada um era agora mais abrangente. O amor, queria eu que vocês entendessem, não era para toda a vida. E não sendo para toda a vida, o divórcio era inevitável. Mas no "tempo da outra senhora" ninguém acreditou em mim. A família, era o núcleo da sociedade. E assim, assisti, impávido e pouco sereno devo dizer, à construção de eternas histórias de amor. Ou pseudo-amor? Bom, vamos acreditar por agora, que seriam histórias de amor. E a paranóia pelo casamento foi de tal ordem, que enviavam vocês rapaziada para a guerra e as meninas casavam-se por procuração. E onde é que já se viu isto, um casamento sem noite de núpcias? Onde é que andava toda a gente com a cabeça?
Aquando da queda "da outra senhora" veio a liberdade e eu claro, não me fiz rogado e entrei país adentro. Onde chega a Coca-Cola, chega o divórcio. Eu, gostem ou não, faço parte da evolução social. Um homem ou uma mulher toma uma decisão, arrepende-se e tem como dar a volta a coisa. À custa, por vezes, de muito dinheiro é certo, mas ainda assim, tem como dar a volta. Não compreendo, de todo, a revolta de algumas instituições, religiosas por exemplo, contra a minha condição. Clamam o livre arbítrio para a humanidade, mas reduzem-nos a um amor que se revela a longo prazo moribundo e arcaico. O amor humano? Não me façam rir.
Compreendo por outro lado, que existe uma motivação económica agregada ao casamento. Faz parte da sua génese e contra isso, nada de nada. Agora, porque é que uma pessoa tem que morrer agarrada a outra só porque no início da vida teve que.. tratar da vida? E os que se casam com a paixão a sair-lhes pelas orelhas? Que não percebem que a paixão é o mais insidioso dos sentimentos? E que gostem ou não, passa. Não como vento, mas passa. E a teoria que depois da paixão vem o amor, não é uma teoria. Para o ser, precisaria de ser demonstrada, e quem, no seu perfeito juízo, consideraria o amor a médio prazo, uma verdade demonstrada?
Aproveito hoje, o dia do meu aniversário, para agradecer o vosso empenho tremendo em aumentar a minha taxa de ocorrência. Em Portugal, ao que parece, metade das pessoas que se casam, divorciam-se. Uns redondos 50%. Sei também que à volta de 70% desta taxa se deve a problemas financeiros, coisa que no vosso país, é o status quo. Este factor aliado à ideia de que o casamento é uma das vias para a felicidade, garante-me um futuro risonho. Deixo-vos um conselho e contra mim falo: não hipotequem a felicidade dos vossos cidadãos em nome da natalidade. A vossa libertação não deve depender de um papel.
Carta de Reclamação - A Morte
A morte, indignada, escreve uma carta a organizações religiosas, reclamando sobre a percepção que tem sido transmitida às populações sobre si própria.
"Boa tarde,
O vosso esforço por me evitar é no mínimo, divertido. A tradição judaica ensinou-vos, nos últimos 3.000 anos, que existe vida para além da morte. Pouco me importa. Querem achar que são eternos, força. Porque não? Até compreendo. Atravessam uma vida louca, cheia de obstáculos, sensações, emoções, tristezas, alegrias e tremoços. A micronésima parte que vocês representam no universo não passa disso mesmo, mas entendo, que sendo uma experiência para vocês tão complexa e atribulada, não possa acabar assim, sem mais nem menos.
Durante muito tempo, a vossa famigerada instituição, tranquilizou milhões de almas perdidas. Se havia vida depois da morte, nada havia a temer. E se querem a minha opinião, naqueles tempos, mais valia estar morto que estar vivo. Mas tudo mudou. Lentamente, mas mudou. As vossas miseráveis vidas, tornaram-se ligeiramente menos miseráveis em alguns sítios. Os vossos corpos duram agora muito mais tempo, e os cavalheiros das batas brancas vivem numa luta desbravada para adiar a bendita hora. Os únicos que admiro, sinceramente, são os que escolhem viver. A maior parte de vós, não entende, o que é pensar em mim e sentir alívio. Quando a ideia de partir se torna agradável, ficar aí, significa qualquer coisa. Divirto-me também com toda a literatura que vocês desenvolveram ao longo dos anos e o medo de mim, tornou-se de tal forma gritante, que até já diagnosticam pessoas com a tal da hipocondria, que sim, em última análise, é medo também de morrer.
Aquilo que pretendo, de uma vez por todas, é que se transmita a minha importância enquanto parte de um ciclo natural; o vosso mundo tem um fim. Tudo começa e acaba. Eu sou um simples símbolo de determinados fins. Não tem que ser uma alegria, nem uma tristeza. É o que é. Um fim. Tratem das vossas massas como eu trato do meu poder: com muito cuidado. Descobrirão, mais rápido do que pensam, que não devem ter medo da verdade. A bem, ou a mal.
Despeço-me, não para sempre claro."
"Boa tarde,
O vosso esforço por me evitar é no mínimo, divertido. A tradição judaica ensinou-vos, nos últimos 3.000 anos, que existe vida para além da morte. Pouco me importa. Querem achar que são eternos, força. Porque não? Até compreendo. Atravessam uma vida louca, cheia de obstáculos, sensações, emoções, tristezas, alegrias e tremoços. A micronésima parte que vocês representam no universo não passa disso mesmo, mas entendo, que sendo uma experiência para vocês tão complexa e atribulada, não possa acabar assim, sem mais nem menos.
Durante muito tempo, a vossa famigerada instituição, tranquilizou milhões de almas perdidas. Se havia vida depois da morte, nada havia a temer. E se querem a minha opinião, naqueles tempos, mais valia estar morto que estar vivo. Mas tudo mudou. Lentamente, mas mudou. As vossas miseráveis vidas, tornaram-se ligeiramente menos miseráveis em alguns sítios. Os vossos corpos duram agora muito mais tempo, e os cavalheiros das batas brancas vivem numa luta desbravada para adiar a bendita hora. Os únicos que admiro, sinceramente, são os que escolhem viver. A maior parte de vós, não entende, o que é pensar em mim e sentir alívio. Quando a ideia de partir se torna agradável, ficar aí, significa qualquer coisa. Divirto-me também com toda a literatura que vocês desenvolveram ao longo dos anos e o medo de mim, tornou-se de tal forma gritante, que até já diagnosticam pessoas com a tal da hipocondria, que sim, em última análise, é medo também de morrer.
Aquilo que pretendo, de uma vez por todas, é que se transmita a minha importância enquanto parte de um ciclo natural; o vosso mundo tem um fim. Tudo começa e acaba. Eu sou um simples símbolo de determinados fins. Não tem que ser uma alegria, nem uma tristeza. É o que é. Um fim. Tratem das vossas massas como eu trato do meu poder: com muito cuidado. Descobrirão, mais rápido do que pensam, que não devem ter medo da verdade. A bem, ou a mal.
Despeço-me, não para sempre claro."
Cartas Soltas - Medo do escuro
A morte tenta marcar consulta num psicólogo, para deixar de ter medo no escuro.
"Senhor Doutor,
Pretendo com esta carta antes de mais, sensibilizá-lo para a realidade que me prende e atormenta numa voraz vontade de viver a vida como outro conceito qualquer. A sociedade em que o doutor se insere, foi a que mais se desenvolveu na compreensão de fenómenos tortuosos. Diga-se de passagem, que foi também, a que mais se esforçou para os desenvolver e aplicar. De qualquer forma, esta introdução serve para explicar que o meu pedido vai no sentido de lhe mostrar que falo verdade e que não se trata de nenhuma brincadeira. Até à data, nenhum dos seus colegas acreditou nas minhas sinceras palavras. E deste problema doutor, tenho que me livrar.
Ora, por estranho que pareça, eu, a morte, tenho medo do escuro. Bem sei, que à luz de todas as percepções que a sociedade tem de mim, isto é no mínimo, um paradoxo. Mas eu não tenho culpa que me associem a uma coisa má. Eu não sou boa nem má. Nem vou buscar ninguém de barco. Nem tão pouco peguei numa foice na vida. Mesmo que uma coisa desses existisse, imagine a sujeira que não seria, levar as pessoas para o outro lado, ceifadas como se diz. Bem sei que é uma metáfora, mas mesmo assim, é um exagero de todo o tamanho. Portanto, como qualquer outra coisa que habita este mundo, tenho os meus medos e as minhas incertezas. O escuro é uma delas, e segundo percebo, é possível através dos vossos estudos, compreender este medo e fazer com que ele desapareça. Só peço um pouco mais de qualidade de vida. Já sei o que é que está a pensar. A morte a pedir qualidade de vida. É um paradoxo, bem sei. Mas se eu existo, estou viva. Compreende o meu drama? Estar vivo, não é o contrário de estar morto no meu caso. Aí tem doutor, uma coisa para pensar, vocês que tanto gostam de reflectir sobre tudo e mais alguma coisa. Eu, na minha simples existência, só quero perder este medo. Pensando bem e voltando atrás, se calhar estar morto é o contrário de existir, faz mais sentido. Assim podem incluir-me nestas vossas tiradas pitorescas.
Tendo tudo em conta, compreenda o meu sufoco, e guarde meia-hora do seu dia para mim. Bem sei que me dedicará uma eternidade daqui a uns anos, mas por agora, preciso só de meia-horinha durante umas semanas.
Certa da sua sensibilidade, aguardo notícias suas. De uma forma ou de outra, falaremos um dia (isto não foi uma ameaça doutor, a vida é mesmo assim, ou melhor, a morte é mesmo assim.. bom, como quiser, só não quero ferir a sua sensibilidade).
Cumprimentos,
A Morte"
"Senhor Doutor,
Pretendo com esta carta antes de mais, sensibilizá-lo para a realidade que me prende e atormenta numa voraz vontade de viver a vida como outro conceito qualquer. A sociedade em que o doutor se insere, foi a que mais se desenvolveu na compreensão de fenómenos tortuosos. Diga-se de passagem, que foi também, a que mais se esforçou para os desenvolver e aplicar. De qualquer forma, esta introdução serve para explicar que o meu pedido vai no sentido de lhe mostrar que falo verdade e que não se trata de nenhuma brincadeira. Até à data, nenhum dos seus colegas acreditou nas minhas sinceras palavras. E deste problema doutor, tenho que me livrar.
Ora, por estranho que pareça, eu, a morte, tenho medo do escuro. Bem sei, que à luz de todas as percepções que a sociedade tem de mim, isto é no mínimo, um paradoxo. Mas eu não tenho culpa que me associem a uma coisa má. Eu não sou boa nem má. Nem vou buscar ninguém de barco. Nem tão pouco peguei numa foice na vida. Mesmo que uma coisa desses existisse, imagine a sujeira que não seria, levar as pessoas para o outro lado, ceifadas como se diz. Bem sei que é uma metáfora, mas mesmo assim, é um exagero de todo o tamanho. Portanto, como qualquer outra coisa que habita este mundo, tenho os meus medos e as minhas incertezas. O escuro é uma delas, e segundo percebo, é possível através dos vossos estudos, compreender este medo e fazer com que ele desapareça. Só peço um pouco mais de qualidade de vida. Já sei o que é que está a pensar. A morte a pedir qualidade de vida. É um paradoxo, bem sei. Mas se eu existo, estou viva. Compreende o meu drama? Estar vivo, não é o contrário de estar morto no meu caso. Aí tem doutor, uma coisa para pensar, vocês que tanto gostam de reflectir sobre tudo e mais alguma coisa. Eu, na minha simples existência, só quero perder este medo. Pensando bem e voltando atrás, se calhar estar morto é o contrário de existir, faz mais sentido. Assim podem incluir-me nestas vossas tiradas pitorescas.
Tendo tudo em conta, compreenda o meu sufoco, e guarde meia-hora do seu dia para mim. Bem sei que me dedicará uma eternidade daqui a uns anos, mas por agora, preciso só de meia-horinha durante umas semanas.
Certa da sua sensibilidade, aguardo notícias suas. De uma forma ou de outra, falaremos um dia (isto não foi uma ameaça doutor, a vida é mesmo assim, ou melhor, a morte é mesmo assim.. bom, como quiser, só não quero ferir a sua sensibilidade).
Cumprimentos,
A Morte"
Cartas Soltas - Empregado de Luxo
Um empregado de um restaurante de luxo, invectiva sobre os detalhes pitorescos dos seus últimos 30 anos.
"Nos últimos 30 anos, fui desenvolvendo relações nalguns casos, de amizade com muitos dos clientes que passaram por este balcão. Estão a ver aquele estereótipo do tipo que se senta num balcão depois de ser despedido? Eu sou o gajo que ouve e serve os whiskies de 50 euros o copo. Durante este tempo, aprendi bastante. As pessoas com muito dinheiro até nem são antipáticas de todo. Comecei a interessar-me pelos assuntos que me iam chegando aos ouvidos. E gostava de ler nos semanários, notícias sobre as pessoas que servia tantas vezes. Curiosamente, os que pareciam super simpáticos na televisão revelavam-se autênticos trastes. O mesmo para os que pagavam com o bendito cartão de crédito com a inscrição DR.
Muitos familiares e conhecidos meus perguntavam-me o que é que levava as pessoas a gastarem tanto dinheiro em comida. Eu que estou dos dois lados do balcão, tentei explicar, em vão diga-se de passagem, que a questão não era a comida. Para além da comida ser de facto, diferente do restaurante onde eu vou quando as minhas filhas fazem anos, a prestação do serviço em si, é outra loiça. Como dizem os experimentados homens do marketing, aquilo não é um almoço ou um jantar. É uma experiência. A sincronização dos empregados, a atenção ao ponto de não ter que levantar o dedo para que lhe encham de novo o copo, a delicadeza do trato e a simpatia crónica sem o sentido depreciativo do termo. Isto tudo junto, vale dinheiro. Bastante dinheiro. Mas deve ser daquelas coisas que só passando por elas. É a mesma coisa que a psicologia penso eu. Ora, que qualificações tenho eu para ouvir gente que tem problemas que eu nunca hei-de ter na vida? Nada. Sirvo lagosta ao balcão. Por exemplo. Devo ter aquela coisa de ser bom ouvinte. Não sei como é que o faço. Mas faço. E resulta pelos vistos. Senão não tinha durado 30 anos aqui. Os empregados mais novos dizem que já devo 10 anos à terra. E eu acho o mesmo. Mas gosto disto. Vivi uma vida de rico, sendo remediado. Ou melhor, conheci-a de perto. E fiz parte dela de certa forma. No meu caso, tal como os clientes, fui mais que um empregado de balcão. Isto também, foi uma experiência. Do caraças."
"Nos últimos 30 anos, fui desenvolvendo relações nalguns casos, de amizade com muitos dos clientes que passaram por este balcão. Estão a ver aquele estereótipo do tipo que se senta num balcão depois de ser despedido? Eu sou o gajo que ouve e serve os whiskies de 50 euros o copo. Durante este tempo, aprendi bastante. As pessoas com muito dinheiro até nem são antipáticas de todo. Comecei a interessar-me pelos assuntos que me iam chegando aos ouvidos. E gostava de ler nos semanários, notícias sobre as pessoas que servia tantas vezes. Curiosamente, os que pareciam super simpáticos na televisão revelavam-se autênticos trastes. O mesmo para os que pagavam com o bendito cartão de crédito com a inscrição DR.
Muitos familiares e conhecidos meus perguntavam-me o que é que levava as pessoas a gastarem tanto dinheiro em comida. Eu que estou dos dois lados do balcão, tentei explicar, em vão diga-se de passagem, que a questão não era a comida. Para além da comida ser de facto, diferente do restaurante onde eu vou quando as minhas filhas fazem anos, a prestação do serviço em si, é outra loiça. Como dizem os experimentados homens do marketing, aquilo não é um almoço ou um jantar. É uma experiência. A sincronização dos empregados, a atenção ao ponto de não ter que levantar o dedo para que lhe encham de novo o copo, a delicadeza do trato e a simpatia crónica sem o sentido depreciativo do termo. Isto tudo junto, vale dinheiro. Bastante dinheiro. Mas deve ser daquelas coisas que só passando por elas. É a mesma coisa que a psicologia penso eu. Ora, que qualificações tenho eu para ouvir gente que tem problemas que eu nunca hei-de ter na vida? Nada. Sirvo lagosta ao balcão. Por exemplo. Devo ter aquela coisa de ser bom ouvinte. Não sei como é que o faço. Mas faço. E resulta pelos vistos. Senão não tinha durado 30 anos aqui. Os empregados mais novos dizem que já devo 10 anos à terra. E eu acho o mesmo. Mas gosto disto. Vivi uma vida de rico, sendo remediado. Ou melhor, conheci-a de perto. E fiz parte dela de certa forma. No meu caso, tal como os clientes, fui mais que um empregado de balcão. Isto também, foi uma experiência. Do caraças."
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